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Pesado-Origem e consolidação do metal em Pernambuco. Entrevista com o autor.

18/04/2018

Flávia Castro .

Jornalista, músico e contador de histórias, Wilfred Gadêlha, atual vocalista da banda de heavy metal Will2Kill, decidiu escrever sobre o  gênero pelo qual se apaixonou desde 1986, quando ouviu o Iron Maiden, aos 12 anos. Pesado – Origem e consolidação do metal em Pernambuco, que será relançado pela Cepe Editora, resgata as origens da música pesada em um estado conhecido pelo misto de cores e ritmos carnavalescos.


Para falar do ritmo pesado e sombrio que também integra a cultura musical pernambucana,  Wilfred reuniu mais de 150 entrevistas, além de pesquisas. O livro é completo, original e fascinante, com temáticas que interessam até a quem nunca ouviu o pesado som do heavy metal


A primeira edição, lançada em 2014, esgotou-se em três meses. A segunda será lançada pela Cepe Editora na quarta-feira, 25 de abril de 2018, no Centro Cultural dos Correios, a partir das 19 horas, com um novo projeto gráfico como conta o autor nesta entrevista.


Descreva pesado em uma palavra:


Vida. É a história da vida de muitas pessoas, inclusive a minha.


Como surgiu o projeto de escrever um livro abordando o cenário do heavy metal em Pernambuco?


O projeto surgiu em 2009, quando Daniela Maria Ferreira e Amílcar Bezerra, professores da UFPE, me convidaram para participar de uma pesquisa cultural sobre a relação do metal pernambucano e o manguebeat. Com a participação também do professor Jorge de la Barre, da Universidade Federal Fluminense, mapeamos as bandas e locais de show. Foi daí que tivemos a ideia de um livro. Em seguida, fizemos outra pesquisa, também com financiamento do Funcultura, mas no interior, que tem uma cena bem forte. Então, era meio caminho andado. Apresentei o projeto do livro ao Funcultura em 2013 e em 2014 ele foi publicado.


Qual a função de Pesado para o metal? O que ele preserva desse gênero?


É bem escassa a historiografia sobre música no Brasil – e sobre metal é quase nenhuma. Em Pernambuco, poucos livros falam da cena metal em específico. Os livros de José Teles (Do frevo ao manguebeat) e Hugo Montarroyos (Devotos 20 anos) citam algo, mas não aprofundam, até porque não é o escopo deles. Então, o nosso livro tem essa função primordial: tirar uma fotografia gigante, panorâmica, de mais de 50 anos de uma cena que começou quando nem o termo heavy metal existia. Ele preserva um espírito de rebeldia e inconformismo que existe no estilo e discute coisas como as relações entre o metal e outros gêneros musicais.


Qual a importância da obra para o cenário?


Acredito que é importante porque quem fez e faz parte da cena se reconhece no livro. Muitas pessoas me disseram que voltaram no tempo ao ler o livro, que chegaram até a chorar. Porque no metal tem uma coisa forte, que é a questão do pertencimento. A gente se identifica com o estilo como se fosse a própria existência. Não sei o que eu seria se não tivesse ouvido Iron Maiden aos 12 anos.


Como foi organizado o processo de montagem do livro, entrevistas, pesquisas?


Eu ouço heavy metal desde 1986 e trabalho com isso desde 1990 - ano em que produzimos, eu e meu irmão Márcio, o fanzine Psicose. Então, a coisa vem lá de trás. As entrevistas das pesquisas deram o norte e a gente sentiu necessidade de ir mais longe. Prazeroso, mas muito trabalhoso foi o processo de pesquisa iconográfica. Fotos que não sabíamos quem tinha feito, muitas com qualidade péssima, mas com um valor histórico e simbólico importantíssimo. Depois disso, o texto fluiu fácil.


Quais dificuldades surgiram no decorrer da produção do livro?


Bem, algumas são normais de todo processo produtivo. Houve atrasos, houve o que chamo de “engavetamento”, pois muita gente tem material mas não libera, e isso poderia ter enriquecido mais o acervo iconográfico. Mas queria salientar que cavoucamos fundo e achamos muita coisa legal. Inclusive do ponto de vista sonoro. Ouvi coisas que nunca tinha ouvido – e que grande parte da cena também não ouviu.


Qual seu objetivo ao escrever um livro que conta a história do metal no Estado?


O objetivo foi contar uma história. Como sou jornalista de formação, a participação de Daniela, Jorge e Amílcar foi primordial, pois eles deram um toque mais acadêmico e sociológico ao texto final, que é meu. Mas eu sou um contador de histórias. Então, embora muita coisa tenha ficado de fora, creio que atingimos o objetivo de ter uma obra que sirva de referência para que outros pesquisadores possam aprofundar isso.


Quais questionamentos estão presentes no livro?


Vários. Um deles é essa questão que se colocou em Pernambuco de que não havia nada aqui antes do manguebeat. Não é verdade e fazemos questão de mostrar isso. Mas também avaliamos o “ranço” que nós do metal temos com o manguebeat, como se fosse culpa deles. E não é culpa de ninguém: Pernambuco é diverso o suficiente para ter Decomposed God e Nação Zumbi na ativa simultaneamente.


Qual a sensação de republicar Pesado após quatro anos de lançamento do primeiro?


Emoção. Desta vez, Marcus ASBarr diagrama o livro e ele é um companheiro de cena do fim dos anos 80. Então, a gente trocou muita ideia. Assim como com o revisor Ruy Guerra, que tem a primeira edição e já havia feito algumas correções. Iara Lima, uma parceria que está nisso há tempos, também fez uma revisão do texto antes de chegarmos à Cepe. Mas sinto também um sentimento de dever cumprido. Estamos concluindo um ciclo. Quero continuar escrevendo sobre música, mas não necessariamente sobre heavy metal. Já tenho algumas ideias em desenvolvimento, que serão divulgadas no momento certo.


Em sua primeira tiragem, o livro esgotou-se, quais suas expectativas para essa reedição?


A gente espera que esgote tão rápido quanto a primeira. O livro é uma segunda edição. Quatro anos se passaram e nós atualizamos isso cronologicamente. Bandas acabaram, outras reapareceram, algumas surgiram e mudaram de status. Enfim, temos um livro com um projeto gráfico inspirado no primeiro, com o mesmo logo, que é uma marca Pesado, que se estende por outros caminhos. Mas acho que o livro é uma oportunidade de a gente ampliar as discussões, como fizemos com o documentário Pesado - Que som é esse que vem de Pernambuco?


Por fim, o que o público pode esperar nessa segunda edição? Quais as novidades?


A gente tem um novo projeto gráfico, um novo formato, uma nova diagramação, a linha do tempo atualizada em quatro anos (a primeira edição terminava em 31 de dezembro de 2013. Essa agora, em 31 de dezembro de 2017), fotos novas e a questão dos QR Codes, que achei muito massa: cada capítulo tem um QRCode que te leva para ouvir uma música que tem a ver com o que você está lendo. No capítulo Carnificina, que fala sobre o thrash metal, você vai ouvir um dos maiores clássicos do metal daqui, Seca, do Cruor. No capítulo Eis o Homem, uma versão ao vivo de Kill the bastard com a formação atual do Decomposed God. Espero que realmente as pessoas curtam o que fizemos, pois foi feito com muito carinho.